
Semana de avaliação: Avanços e desafios do projeto Hãmhi
13 a 17 de outubro de 2025
O seminário de avaliação do Projeto Hãmhi agregou em cinco dias as atividades de conclusão da primeira etapa de formação de agentes e viveiristas do Projeto, que apresentaram painéis preparados ao longo de oficinas e cursos e uma sessão de discussão técnica intitulada “AVANÇOS E DESAFIOS DO PROJETO HÃMHI “, que contou com apresentações preparadas pelas seguintes equipes: Projeto Hãmhi, Programa Arboretum, IEF, Emater, Prevfogo-Ibama e Sena Soluções Ambientais e Engenharia.
A realização do seminário de avaliação final nos cinco territórios, proporcionando a participação de toda a comunidade e contando com a apresentação de trabalho final pelos agentes e viveiristas foi de suma importância para a conclusão da fase 1 do Projeto Hãmhi. Ao longo dos cursos realizados sob a coordenação da professora Vanessa, e com o acompanhamento da produção de registros nos cadernos de diários, os agentes agroflorestais e as viveiristas, sendo orientados pelos professores Tikmũ’ũn alunos do FIEI-UFMG, desenvolveram um método de construção coletiva de um relato sobre a experiência do Projeto Hãmhi. Foram criados painéis, montados a partir de colagens, onde a produção pictográfica permitia construir coletivamente uma narrativa sobre o sentido do projeto e suas realizações. Este método permitiu que o trabalho da escrita não fosse centrado no indivíduo “agente” ou “viveiristas”, mas que fossem tomados como parte de um núcleo familiar, de uma aldeia ou de um território. Jovens, pajés, professores, mulheres, parentes, todos puderam juntos participar deste momento de reflexão, balanço e elaboração do projeto Hãmhi, permitindo inserir essas práticas dentro do universo cosmológico tão presente no pensamento Tikmũ’ũn.
Na Aldeia Verde, os painéis trouxeram desenhos sobre as diversas etapas dos plantios e cuidados com a terra, com detalhes sobre os métodos de plantio, as ferramentas utilizadas, as pessoas envolvidas, o mutirão, os alimentos da colheita, a alimentação dos Yãmĩyxop. Na Aldeia-Escola-Floresta, foi produzido um belíssimo painel, que constrói a equivalência entre o viveiro e o Kuxex, a casa onde os homens Tikmũ’ũn se reúnem para receber nas aldeias os Yãmĩyxop, seres detentores de conhecimentos e cantos. Na apresentação, eles descrevem o ciclo de crescimento das mudas cuidadas pelos viveiristas como o crescimento das crianças cuidadas pelos Yãmĩyxop, bem como uma relação entre a troca de alimentos e conhecimentos entre aqueles que plantam e os Yãmĩyxop. Na Cachoeirinha, o painel teve a participação de crianças na realização de desenhos que foram incorporados à narrativa, produzindo uma cronologia do início do Projeto Hãmhi quando aconteceram as consultas até os dias de hoje, quando já estão colhendo alimentos. Em Água Boa e Pradinho foram produzidos vários painéis, tendo em vista o maior número de agentes e viveiristas. Foi possível observar a diversidade de formas de elaborar uma narrativa sobre a experiência de formação do projeto em diálogo com os coletivos onde estão inseridos. As mulheres viveiristas de Água Boa discutiram a relação da água com a força da mulher Tikmũ’ũn, trazendo as imagens dentro de redes de pesca confeccionadas e utilizadas pelas mulheres da aldeia. Alguns painéis trouxeram a discussão sobre o retorno dos bichos, outros trouxeram o passo a passo do trabalho apreendido, com detalhes sobre as linhas de plantio, as ferramentas utilizadas. No Pradinho, um dos painéis trouxe a discussão sobre a regeneração natural da área nomeada por eles como “Buraco da Capivara”. As viveiristas apresentaram todas as etapas de trabalho nos viveiros. Além das apresentações, ocorreram visitas nas áreas de plantio (quintais e reflorestamento), e uma exposição na Escola da Aldeia Nova Vila com os cadernos de diários e painéis produzidos pelos agentes e viveiristas.
O seminário foi também o momento da expressão de cada agente e viveirista, o que se materializou em fichas individuais, onde relatam sua experiência e seu aprendizado.
Além disso, a equipe do projeto organizou o Ementário de todas as atividades formativas que ocorreram entre maio de 2023 e outubro de 2025, de forma a constituir um histórico escolar de cada agente, viveirista e brigadista. O esforço em constituir este histórico escolar é direcionado às discussões que vimos tentando realizar com a Secretaria Estadual de Educação no intuito de obter o reconhecimento e a certificação da formação do Hãmhi a nível de Ensino Médio Profissionalizante.
O Seminário de avaliação técnica do projeto, que ocorreu na tarde do dia 16 de outubro, na Aldeia Nova Vila do Pradinho, reuniu parceiros que vêm trabalhando no território (Arboretum, IEF, SEAPA/MG, Emater/MG), bem como trouxe a apresentação do diagnóstico e Plano técnico de reposição da flora- PTRF por Dilson Sena, da empresa Sena Soluções ambientais e engenharia. As apresentações foram bastante ricas, apresentando experiências exitosas e desafios técnicos. Neste seminário estavam presentes representantes do poder público, como o MPMG, MPF, FUNAI, TJMG, IBAMA, IEF. A possibilidade de reunir todos estes atores foi de suma importância, uma vez que fortalece a presença do Estado e das políticas públicas nos territórios Maxakali. De fato, desde o início de sua execução, a equipe coordenadora do projeto Hãmhi vem buscando interlocução com estes setores, tendo em vista os enormes desafios relacionados à proteção territorial, à saúde, à água e à infra estrutura, revelando uma grande ausência do Estado nos territórios Tikmũ’ũn.
Parcerias
O Seminário de avaliação se realizou com um importante apoio dos participantes citados acima: CIMOS-MPMG, prefeituras (Bertópolis, Santa Helena, Teófilo Otoni), do Programa SESC Mesa Brasil, das Escolas Indígenas, da FUNAI, SESAI/MS, UFMG, UFSB, MPF e consolidou ainda mais os laços de parceria com estes vários atores.
Avaliação
A semana de avaliação do Projeto Hãmhi contou com forte mobilização em todos os territórios, com a presença de homens, mulheres, pajés, crianças, professores, que vieram preparados para momentos de canto, dança, e para o diálogo com os visitantes. Entendemos que para os jovens agentes, as viveiristas e os brigadistas, tratou-se de um momento importante onde se colocaram diante de suas comunidades, trazendo reflexões e resultados de suas trajetórias, que foram materializadas na entrega dos diários elaborados, na apresentação de painéis, nos históricos escolares , e sobretudo, nos quintais e plantios coletivos que puderam apresentar aos visitantes.
Desdobramentos
Do ponto de vista da construção das ações do Projeto Hãmhi, foi uma semana extremamente produtiva, de muito diálogo com os diferentes participantes, muitos deles já envolvidos em ações de enfrentamento aos desafios enfrentados por essa população vulnerável. Ficou clara a necessidade de reunir esforços e trabalhar em ações conjuntas, não apenas no âmbito do projeto Hãmhi, mas para a conquista de uma maior efetividade das instituições de Estado dentro do território. Muito se enfatizou a necessidade do fortalecimento da CTL-Funai para a proteção territorial, da oficialização da Brigada Kõnãghi Maxakali, bem como a possibilidade de uma construção futura de um Plano de Manejo Integrado do Fogo. A implementação do Programa de Aquisição de Alimentos, fruto de ações da gestão do Projeto Hãmhi junto aos órgãos competentes tem se mostrado um marco importantíssimo na construção da segurança alimentar do povo Tikmũ’ũn.
